Relatos 04: O choque do diagnóstico de Asperger!

Relatos 04: O choque do diagnóstico de Asperger!

Hoje damos segmento a nossa coluna de relatos onde estamos abrindo espaço para aqueles que tenham a Síndrome de Asperger em suas vidas para que possam compartilhar suas experiências de vida lidando com este transtorno que ainda é tão pouco conhecido pela sociedade como um todo.

Sempre é válido lembrar que nos dias atuais a Síndrome de Asperger é classificada como sendo o grau mais leve dos Transtornos do Espectro do Autismo (TEA), suas principais características ficam por conta de dificuldades na interação social e ainda alguns problemas na coordenação motora.

Fora isso essas pessoas podem levar uma vida bem próxima daquilo que a sociedade vê como ‘normal’, no relato de hoje iremos acompanhar a história de um leitor que pediu para não ser identificado, mas que mesmo assim quis compartilhar a sua história.

Ele tem 24 anos de idade e nos contou como que foi descobrir que aquilo que era visto por todos e inclusive por ele mesmo como ‘esquisitice’ era na verdade algo ocasionado devido a um transtorno neurológico.

Veja o relato a seguir:

Falar sobre a vida com Síndrome de Asperger é um tanto complicado para mim, sobretudo pelo fato de ainda estar me acostumando com a ideia.

Nasci numa época em que não se procurava um profissional de saúde a menos que estivesse com um grave problema físico, não havia informação disponível sobre transtornos de ordem neurológica e, assim, eu cresci como sendo só “esquisito mesmo” (creio que não fui só eu).


Sempre tive muita dificuldade de me relacionar com outras pessoas (principalmente com outras crianças), problemas pra pronunciar algumas palavras (a maioria não era nem que não conseguisse falar, eu apenas não gostava da pronúncia! É mole?!) e várias manias e interesses que destoavam das pessoas comuns.


Mesmo assim fiz boas amizades na infância e as mantenho até hoje.
Na adolescência (ainda esquisito) eu comecei a tentar agir igual aos colegas de escola e de trabalho e como todo mundo dizia que “a adolescência é complicada mesmo”, ficou mais fácil disfarçar que não era coisa de adolescente, era coisa minha.

Esse diagnóstico de “esquisito mesmo” me foi dado na infância e me acompanhou pela adolescência toda até cerca 4 anos atrás , quando decidi procurar ajuda profissional.

Eu tinha 20 anos quando veio o diagnóstico que a princípio me deixou ainda pior. Uma coisa era ser esquisito (já estava acostumado com isso), outra bem diferente era ter uma doença que se tratava de “um tipo leve de autismo” nas palavras da médica.

Por falta de informação correta eu associava autismo (e por consequência o seu “tipo leve”) a um problema grave, incapacitante, a algo que não queria jamais pra minha vida.

Me recusei a aceitar o diagnóstico! Também não quis saber de nada relacionado a tratamento por não acreditar que houvesse algo para tratar.

Negar a mim mesmo como sou fez dos meses seguintes os piores da minha vida, ainda não conseguia entender como aquilo foi acontecer comigo.

Eu tinha consciência de que não era igual às outras pessoas, mas eu até já tinha aprendido a fingir que era! Por que não poderia continuar assim?

Não que a vida fosse boa fingindo que gostava de fazer “coisas de pessoas normais” enquanto escondia quem eu era de verdade, mas no fundo, não ser mais chamado de esquisito e de estranho o tempo todo já fazia aquele sacrifício valer a pena (pelo menos eu achava que sim).


Conforme o tempo foi passando eu consegui entender e aceitar melhor as coisas e hoje vivo bem com tudo isso, mesmo em uma profissão que sempre diziam que não combinava comigo por eu ser muito “quieto e na minha” (uma forma mais legal de me chamar de esquisito, dessa eu até gostei) acho que consegui acertar o meio termo entre ser eu mesmo (com Asperger e tudo!) e viver de acordo com o padrão esperado pelas pessoas.

Em um outro relato aqui no site foi dito que só somo estranhos porque vivemos no mundo dos normais. Penso que no fundo, todos tem que se adequar ao mundo padrão dos normais, porque mesmo o mais normal dos normais tem suas peculiaridades.

A vida em sociedade, me parece, é muito isto, um constante adequar-se ao padrão sem perder sua essência única.

A questão é que para os “normais” essa adequação exige muito menos mudanças, entender o porquê de não ser como os outros me ajudou muito.

Lendo mais sobre a Síndrome de Asperger  pude compreender melhor como eu me comporto e quais os motivos para esse comportamento, aqui eu admito que em uma coisa ter Asperger (mesmo antes de saber que tinha) me ajudou muito: para tentar “imitar” as outras pessoas eu tive que observá-las o tempo todo (não que fosse algum psicopata ou coisa assim, era diferente, acho que me entendem).

Toda essa observação me possibilitou entender as pessoas e com isso entender o mundo construído por elas pra viver, pode parecer controverso, mas entender as pessoas me permitiu ver o porquê de elas não me entenderem. 

Todos estão tentando se encaixar na sociedade e fazem isso de modo tão cotidiano e automático que já nem se dão conta, não se dão conta sequer que existem pessoas (aspies por exemplo) que não conseguem seguir esse padrão social com tamanha facilidade.

Por falta de informação (e volto sempre nesse ponto) ou por falta de interesse mesmo, a grande maioria não sabe ou não quer saber como é a vida com Asperger.


Para não me alongar muito, acredito que embora alguns tenham mais diferenças que outros, seja em decorrência da Síndrome de Asperger ou não, podemos viver juntos e bem se aceitarmos essas diferenças ao invés de tentar reprimi-las.

Agradecemos o relato de nosso leitor e realizamos apenas uma pequena correção em suas palavras, em seu relato, nosso leitor disse que a Síndrome de Asperger ou ainda os Transtornos que são parte do Autismo são uma doença, na verdade eles são uma desordem neurológica e não uma doença em si.

Que tal compartilhar você também o seu relato, nos ajude por meio de histórias reais mostrar como é a vida com Asperger, acreditamos que quanto mais experiências conseguirmos mostrar por aqui melhor poderemos informar aqueles que estão buscando entender mais sobre esse transtorno que carregam consigo ou ainda para ajudar pessoas que lidam com quem o possua a tentarem entender essas pessoas um pouco melhor.

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FernandoAzevedo